10 de julho de 2010

Eu e o entardecer


E neste novo entardecer,
Em que o céu enfeita-se de belas cores
E escondem-se as flores,
Quero com ele acontecer.

Deixar que o anoitecer,
Que aos poucos irá surgir
E as estrelas sem pudor irão luzir,
Possa enfim me fortalecer.

E que assim como o céu irá vestir-se de uma nova roupagem
Eu possa também, sem temer
Deixar que um novo tecido venha me envolver.

Que ele cubra-me como a noite, aqueça-me como o dia
Mas que jamais oculte o que há em meu ser
Porque ele terá sempre o seu lugar, assim como o entardecer.

Joyce Kelly

4 de julho de 2010

O muito que há no pouco


Quantidade, perceptivelmente, não significa qualidade. Você pode conhecer centenas de pessoas... Eu falei conhecer? Não! Você não as conhece, você apenas as vê, você fala oi... Conhecer mesmo, saber quem elas são verdadeiramente é bem mais complicado. No fundo, no fundo, você conhece poucas pessoas, e, mesmo assim, um dia, você poderá descobrir que não as conhecia tão bem assim. Então, de que adianta tantas pessoas em sua vida, se na verdade é como se não houvesse ninguém? Só para preencher espaços na lista telefônica, na lista de “amigos”... ? É bem melhor que eles sejam poucos, mas que sejam.
Outra coisa que me faz reforçar essa ideia de que quantidade não corresponde à qualidade, é o fato de algumas pessoas falarem “pelos cotovelos”, e, na verdade, não falarem nada. Sim! “Falam demais por não ter nada a dizer” (Renato Russo). E aqueles que falam pouco realmente falam, trocam idéias e sabem ser eloquentes. Então, se você não tem nada a dizer, é bem melhor silenciar.
Desconfie daquilo que vem em excesso. O que realmente é bom chega de mansinho, chega aos poucos, chega sem te assustar. E se algo te parecer pouco, simples demais, olhe-o com mais atenção, porque, às vezes, é nessa simplicidade, é nesse pouco, que você pode encontrar o muito, o bastante porque, definitivamente, quantidade não significa qualidade.

“A qualidade é a quantidade de amanhã.” (Henri Bergson)

27 de junho de 2010

Efemeridade


E daqui, deste banco, vejo tudo passar... Algumas coisas, pessoas, passam por mim devagar. Chegam até a parar. Param por um momento, mas logo depois continuam a caminhar. E junto com elas passa também o tempo. Ao contrário delas, ele não para. Ele segue... tornando tudo o que vejo efêmero e digno de apreciar cada detalhe, porque eles são únicos e também passarão. E esse vento frio que passa levando consigo as folhas desta árvore, as quais darão lugar a folhas novas, me faz perceber que o que estou vivendo hoje também seguirá. O que estou vivendo de bom e o que chega a me magoar. Preciso apreciar esse vento, esse momento. Não importa se a chuva vier para atrapalhar, ela também passará. E as pessoas, o tempo, o vento, as folhas, a chuva, esse momento... em seu simples caminhar vieram me ensinar que eu preciso viver o hoje, porque ele... Ele também irá passar.

"Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo."
(Mário Quintana)

15 de junho de 2010

Ausência de si mesmo


Porque você insiste em ter uma presença que é tão ausente? O que a faz querer? O que ela tem de tão especial se a você ela nada dá? A saudade do que você nunca teve. O carinho dado que nunca foi recíproco. E porque, mesmo assim, você insiste em tê-la? Você se preocupa tanto em se doar que nem percebe o tão pouco que recebe. Algo te fecha os olhos e tudo parece imperceptível. Você não consegue enxergar nada além do seu desejo. E, na verdade, você está apenas buscando no outro o que você nunca buscou em você mesmo. E é essa falta de você, EM você, que te torna tão dependente de algo, que no fundo, nem supri o que tanto te falta. Você pode dizer que é amor; mas amor é dependência? Essa segurança que você busca no outro, você tem em si? É preciso, mesmo tomados pela paixão, saber enxergar com os olhos da realidade a quem estamos depositando os nossos sonhos e as nossas expectativas, porque nem sempre elas serão correspondidas e, no final, não adianta você querer culpar o outro porque o único responsável pela sua vida é você mesmo.

...Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.

(Fernando Pessoa)


6 de junho de 2010

Vasta solidão




Por favor...
Não me peça para sorrir
Meu sorriso é vago e sem graça.
Não me peça para falar o que eu sinto
Não faria nenhuma diferença agora.
Não me peça para admirar a sua gentileza
Ela logo passará e eu continuarei sendo o mesmo.
Não me peça para agradecer
Minhas palavras são poucas e não fazem sentido.
Não me peça para quebrar o meu silêncio
Ele é parte de mim.
Não me peça para limpar a sujeira de minha face
Pois ela já sujou todo o meu corpo.
Não me peça para falar o meu nome
Porque de tão pouco pronunciado...
Eu já o esqueci.


Joyce Kelly